Conceito central
A Apropriação do Processo
O que “proceduralidade” significa de fato
Da proceduralidade não intencional à proceduralidade intencional, com a apropriação do processo.
Grande parte daquilo que somos e fazemos resulta de processos que não foram por nós deliberadamente planejados. Ao longo da história, circunstâncias biológicas, sociais, culturais e históricas se articulam com contingências e experiências, produzindo efeitos sobre nossos repertórios comportamentais. Não é necessário que alguém tenha programado esse processo para que ele produza consequências duradouras.
Podemos compreender essa dinâmica como uma proceduralidade não intencional: um encadeamento de condições, acontecimentos, respostas e consequências que se desenvolve e se transforma sem que exista, necessariamente, uma intenção organizadora que determine seu curso.
O comportamento presente, portanto, não surge do nada. Ele traz consigo uma história. Entretanto, reconhecer essa história não significa afirmar que ela determine de maneira absoluta o comportamento futuro. As condições que participaram da constituição de um repertório podem continuar operando, mas novas condições podem ser introduzidas e novas relações podem ser estabelecidas.
É nesse ponto que surge a possibilidade de uma proceduralidade intencional.
A intervenção intencional não consiste em programar diretamente o comportamento que deverá ocorrer. Consiste em apropriar-se do processo: reconhecer as condições que participam de sua dinâmica, identificar possibilidades de intervenção e deliberadamente dispor novas condições e contingências capazes de favorecer outros percursos.
A apropriação do processo é, portanto, uma passagem da condição de quem apenas está submetido ao encadeamento das circunstâncias para a condição de quem passa a participar intencionalmente da organização desse encadeamento.
Isso não significa assumir controle absoluto sobre o processo. A proceduralidade intencional não garante resultados. Ela não transforma possibilidades em certezas, nem contingências em mecanismos determinísticos. Seu propósito é outro: viabilizar que outros resultados possam ocorrer.
Assim, a intervenção psicológica pode ser compreendida menos como uma técnica para produzir comportamentos previamente determinados e mais como uma forma de organizar condições que ampliem o espaço de possibilidades comportamentais.
A questão deixa de ser:“Como produzir o comportamento que queremos?”
e passa a ser:“Como podemos modificar as condições do processo para que novos modos de comportar-se possam emergir?”
A passagem da proceduralidade não intencional à proceduralidade intencional não é, portanto, a passagem da determinação para a liberdade absoluta. É a passagem de uma história que nos constitui sem ter sido deliberadamente organizada por nós para uma participação progressivamente mais consciente e intencional na organização das condições de nosso próprio processo.
Não se trata de programar o resultado. Trata-se de apropriar-se do processo e, por meio dele, abrir possibilidades para que outros resultados possam acontecer.