Práxis

A PRÁXIS E O PERIGO DOS “ISMOS”

Entre a ação transformadora e o fechamento doutrinário

A Psicologia Procedural adota o conceito de Práxis em um sentido específico: ação transformadora orientada pela compreensão da realidade concreta.

Práxis, nesse sentido, não significa simplesmente prática, nem constitui uma adesão automática a qualquer corrente filosófica, política ou ideológica que tenha historicamente utilizado o termo.

A Psicologia Procedural reconhece que o conceito de práxis possui uma longa história na Filosofia e que recebeu formulações particularmente importantes em diferentes tradições, inclusive no pensamento marxista. Entretanto, um conceito não precisa ser confundido com uma única tradição que dele fez uso.

Na Psicologia Procedural:

Práxis é a passagem consciente da compreensão à ação transformadora — e o retorno da ação transformadora à compreensão dos resultados da transformação, para continuar conscientemente transformando.

Não basta compreender o sofrimento humano.

É preciso, quando possível, transformar as condições e os processos que participam de sua constituição e manutenção.

E, depois da transformação, é preciso novamente observar, compreender, avaliar e reconsiderar a ação.

Compreender para transformar.

Transformar e compreender.

Sucessivamente...

No Fluxo do Devir

O perigo dos “ismos”

A Psicologia Procedural manifesta uma reserva deliberada diante dos “ismos”.

Não porque toda corrente identificada por um “ismo” seja necessariamente inválida.

Nem porque sistemas teóricos sejam inúteis.

Mas porque existe um risco recorrente na história do pensamento:

uma perspectiva criada para ampliar a compreensão pode transformar-se em um limite para o que pode ser compreendido.

Um “ismo” pode começar como uma tentativa legítima de responder a determinado problema.

Com o tempo, entretanto, pode adquirir contornos doutrinários.

A perspectiva transforma-se em sistema.

O sistema transforma-se em identidade.

A identidade transforma-se em pertencimento.

E o pertencimento pode transformar-se em fronteira.

Nesse momento, aquilo que deveria funcionar como instrumento de compreensão, começa já a funcionar como filtro obrigatório da realidade.

Quando a lente passa a determinar aquilo que pode ser visto

Toda perspectiva ilumina alguma coisa.

Mas também pode deixar alguma coisa na sombra.

O problema começa quando esquecemos que estamos olhando através de uma lente e passamos a acreditar que a lente é a própria realidade.

O fenômeno deixa de ser investigado em sua complexidade e passa a ser interpretado exclusivamente segundo as categorias disponíveis dentro daquele sistema.

Então:

aquilo que não cabe na teoria passa a ser considerado irrelevante;

aquilo que contradiz a teoria passa a ser considerado erro;

aquilo que exige outra perspectiva passa a ser descartado;

e aquilo que a teoria não consegue explicar pode ser simplesmente excluído do campo de visão.

A Psicologia Procedural procura resistir a essas formas de conduta obtusas.

Não rejeitar perspectivas — não absolutizá-las

A posição da Psicologia Procedural não é:

“Os ismos são todos ruins.”

Isso seria apenas criar outro “ismo”, um "nãoismosismo" para combater os demais.

A proposição da Psicologia Procedural é mais cuidadosa:

Nenhuma perspectiva deve ser confundida com a totalidade da realidade que pretende compreender.

Pode-se aprender com diferentes tradições sem transformar-se em prisioneiro de nenhuma delas.

Pode-se dialogar com a Fenomenologia sem reduzir o humano ao fenomenologismo.

Pode-se dialogar com a Análise Funcional do Comportamento sem reduzir o humano ao behaviorismo.

Pode-se dialogar com o pensamento pragmático sem reduzir o humano ao pragmatismo.

Pode-se dialogar com a dialética sem transformar a dialética em dialeticismo.

Pode-se dialogar com a psicanálise, com a psicologia positiva, com a psicologia histórico-cultural e com tantas outras perspectivas sem precisar convertê-las em identidades doutrinárias.

Dialogar não é aderir.

Articular não é fundir.

Reconhecer uma contribuição não é aceitar um sistema inteiro.

Articular sem criar um Frankenstein conceitual

Isso também estabelece um limite importante para a própria Psicologia Procedural.

Se ela pretende colocar diferentes perspectivas em relação, existe o risco de produzir exatamente aquilo que pretende evitar:

um ecletismo indiscriminado.

A Psicologia Procedural não pretende juntar tudo.

Não pretende afirmar que toda teoria é verdadeira.

Não pretende dissolver contradições reais entre diferentes perspectivas.

Não pretende criar uma síntese artificial na qual conceitos incompatíveis sejam simplesmente colados uns aos outros.

Sua posição é:

Articular sem confundir.

Relacionar sem reduzir.

Aproximar sem apagar diferenças.

Comparar sem hierarquizar antecipadamente.

A diferença entre perspectivas não é necessariamente um problema a ser eliminado.

E talvez seja precisamente aquilo que permite pensar melhor.

O “ismo” como fechamento da consciência

A preocupação fundamental da Psicologia Procedural não é linguística.

É epistemológica.

Quando uma pessoa passa a identificar-se integralmente com determinada doutrina, existe o risco de que sua capacidade de questionar os próprios pressupostos diminua.

A pergunta:

“E se estivermos errados?”

pode tornar-se ameaçadora.

E quando uma teoria não pode mais ser questionada por aqueles que a defendem, ela deixa de funcionar plenamente como instrumento de investigação.

Transforma-se em dogma. Vira religião. Nada contra nenhuma religião. Mas na ciência não cabem dogmas religiosos e de nenhuma espécie.

Por isso, a Psicologia Procedural assume como valor:

A abertura da consciência.

Não uma consciência que aceita tudo sem critérios.

Mas uma consciência capaz de considerar possibilidades sem precisar aprisionar-se fanaticamente a elas.

Capaz de sustentar uma hipótese sem transformá-la em dogma.

Capaz de reconhecer uma contribuição sem transformar o autor em autoridade absoluta.

Capaz de mudar de posição diante de evidências, argumentos ou experiências novas.

Nenhum conceito deve tornar-se uma prisão

Essa posição vale inclusive para os conceitos adotados e/ou criados pela própria Psicologia Procedural.

Procedural.

Devir.

Fluxo.

Concreto.

Relacionática. Este um conceito da Psicologia Procedural.

Práxis.

Nenhum desses conceitos deve transformar-se em uma nova ortodoxia.

Se amanhã uma formulação da Psicologia Procedural demonstrar-se inadequada, insuficiente ou limitada, ela deverá poder ser modificada.

Porque:

uma Psicologia do Devir não pode transformar suas próprias categorias em essências imóveis.

E:

uma Psicologia que pretende ampliar a consciência não pode transformar seus próprios conceitos em limites para serem impostos à consciência.

A própria Psicologia Procedural deve permanecer aberta.

Esse talvez seja o maior teste de coerência do projeto.

Se a Psicologia Procedural afirma:

“A realidade humana está em processo.”

então seu próprio conhecimento também precisa estar aberto ao processo.

Se afirma:

“As relações transformam aquilo com o que se relacionam.”

então suas próprias ideias precisam poder ser transformadas pelo diálogo com outras ideias.

Se afirma:

“Nenhuma perspectiva esgota a realidade.”

então a própria Psicologia Procedural não pode reivindicar esgotá-la.

Se afirma:

“A compreensão deve permanecer aberta à transformação.”

então ela própria precisa permanecer transformável.

Uma Psicologia do processo precisa permanecer em processo.

Práxis contra o dogmatismo

A Práxis Procedural oferece uma proteção adicional contra esse fechamento.

Porque práxis não é simplesmente repetir aquilo que já se sabe.

É colocar a compreensão em contato com a realidade.

A realidade expressa algo que motiva uma ação.

A ação produz consequências.

As consequências podem confirmar, contradizer ou modificar aquilo que pensávamos.

Então a reflexão retorna à observação da realidade e parte para a ação.

E a ação retorna às consequências que geram outra reflexão.

Teoria → ação → consequência → reflexão → nova ação.

A realidade concreta torna-se, assim, uma interlocutora permanente. Motor do pensamento reflexivo. Condição sine qua non para o desenvolvimento do senso crítico.

Nenhuma teoria recebe imunidade contra a experiência.

Nenhum conceito recebe imunidade contra suas consequências.

Nenhuma prática recebe imunidade contra seus resultados.

O critério não é pertencer. É contribuir.

A Psicologia Procedural não pergunta primeiro:

“De que escola veio essa ideia?”

Pergunta:

“O que essa ideia permite compreender?”

Depois:

“Em que condições ela é válida ou útil?”

E ainda:

“Quais são seus limites?”

“Que consequências produz?”

“Pode contribuir para melhores condições de existência?”

Esse é um critério de abertura, não de adesão.

Uma ideia não precisa carregar uma determinada bandeira para ser considerada.

E uma ideia não deve ser aceita simplesmente porque carrega uma bandeira à qual pertencemos.

Uma Psicologia sem “ismo”?

A Psicologia Procedural não pretende necessariamente declarar uma guerra contra os “ismos”.

Isso seria paradoxalmente outro tipo de fechamento.

Sua posição é mais simples:

Não transformar perspectivas em prisões.

Talvez seja possível pensar uma Psicologia que dialogue com muitas tradições sem precisar tornar-se propriedade exclusiva de nenhuma.

Uma Psicologia capaz de dizer:

“Isso é interessante.”

sem precisar concluir:

“Portanto, tudo deve ser explicado por isso.”

Capaz de dizer:

“Essa teoria explica muito bem este aspecto.”

sem precisar concluir:

“Portanto, ela explica o humano inteiro.”

Capaz de dizer:

“Este método funciona neste contexto.”

sem precisar concluir:

“Portanto, deve funcionar em todos os contextos.”

Essa diferença é fundamental.

Ampliação da consciência

No fundo, a crítica aos “ismos” na Psicologia Procedural está subordinada a uma finalidade maior:

ampliar a consciência.

Ampliar não significa acumular infinitamente informações desconexas. E no final não saber o que é que se vai fazer com elas. Tal qual é muito comum que aconteça hoje em dia quando há um acúmulo de informações entre fakes e fatos, e, no mais das vezes, na população em geral, praticamente inexiste capacidade de elaboração.

Ampliar significa elaborar, aumentando a capacidade de perceber relações, distinguir possibilidades, reconhecer limites, tolerar complexidades, questionar pressupostos e considerar aquilo que inicialmente não cabia em nosso campo de visão.

Uma consciência ampliada não é aquela que possui todas as respostas.

É aquela que consegue formular perguntas melhores.

E talvez esta seja uma das maiores aspirações da Psicologia Procedural:

não oferecer uma nova prisão conceitual, mas ampliar o espaço no qual o pensamento possa se mover.

Práxis Procedural

Por isso, a Práxis Procedural não é uma doutrina.

É uma orientação:

compreender a realidade concreta;

reconhecer os processos que a constituem;

agir sobre aquilo que pode ser transformado;

observar as consequências;

reavaliar a compreensão;

modificar a ação;

e permanecer aberto ao que emerge.

Não é uma fórmula.

É um movimento.

Não é uma receita.

É uma investigação em ação.

Não é um “ismo”.

É uma práxis.

Nenhuma teoria deve ser maior que a realidade que pretende compreender.
Nenhuma categoria deve ser maior que a pessoa que pretende descrever.
Nenhum método deve tornar-se dogma.
Nenhum “ismo” deve encerrar aquilo que a consciência ainda pode descobrir.

Não pretende compreender para permanecer contemplando o sofrimento.

Pretende compreender para agir sobre aquilo que puder ser transformado.

Do “o que é?” ao “como se constituiu?”

Como a Justificativa demonstra, o sofrimento não é uma coisa nem uma categoria fixa: é um processo — uma configuração provisória, constituída por condições e relações, mantida por retroalimentações e passível de transformação. A Práxis não reargumenta isso; parte disso, e pergunta apenas: como se intervém nesse processo?

Não confundir o estado atual do processo com o processo que produziu o estado.Ela é quase um axioma metodológico da Psicologia Procedural.

Disso decorre uma sequência metodológica — do nomear ao acompanhar:

O MÉTODO EM SETE ETAPAS

CATEGORIZAR → O que é?

CONTEXTUALIZAR → Em que condições?

RECONSTITUIR → Como se constituiu?

COMPREENDER → O que o mantém?

ARTICULAR → Com o que se relaciona?

INTERVIR → O que pode produzir transformação?

ACOMPANHAR → Como o processo continua se modificando?

O que algo foi ajuda a explicar o que é. O que é participa daquilo que poderá vir a ser.Essa segunda frase conecta diretamente o método ao Devir.

A Psicologia Procedural não é “anti-diagnóstico” — dizer isso claramente evita entendimentos distorcidos.

O problema não está necessariamente em nomear. O problema está em transformar o nome na coisa, e, a coisa na pessoa.

E, sobretudo, preserva uma coisa essencial no projeto da Psicologia Procedural: a pessoa permanece maior que qualquer categoria utilizada para descrevê-la.

Ação Transformadora

Não basta compreender. É preciso transformar.

A Psicologia Procedural não se propõe apenas a compreender o sofrimento humano.

Sua finalidade última não está na descrição, classificação ou explicação do sofrimento, mas na possibilidade de produzir transformação sobre as condições que participam de sua constituição e manutenção, visando, sempre que possível, à sua superação e à ampliação das possibilidades de existência.

É nesse sentido que a Psicologia Procedural compreende sua Práxis como Ação Transformadora.

No Fluxo do Devir

Compreender não é o ponto final

Compreender é fundamental.

Sem compreensão, a intervenção pode tornar-se arbitrária, precipitada ou inadequada.

Mas compreender, por si só, pode não ser suficiente.

Uma pessoa pode compreender profundamente seu sofrimento e, ainda assim, permanecer aprisionada nos mesmos processos que o constituem.

Uma teoria pode explicar brilhantemente um fenômeno e, ainda assim, produzir pouca diferença na vida concreta de quem sofre.

Por isso, a Psicologia Procedural pergunta:

Compreender para quê?

E sua resposta é:

Para ampliar as possibilidades de transformação.

A compreensão não é descartada.

Ela é colocada a serviço da ação.

Da compreensão à transformação

A Práxis Procedural parte de uma relação dinâmica:

Compreender → Agir → Transformar → Reavaliar → Compreender novamente

Não se trata de uma sequência rígida e linear.

É um processo recursivo.

A ação produz novas condições.

As novas condições modificam o processo.

A transformação produz novos fenômenos.

Os novos fenômenos exigem nova compreensão.

E a nova compreensão pode orientar novas ações.

Assim, a práxis permanece em movimento.

Compreender para transformar.

Transformar para compreender.

O que significa “Ação Transformadora”?

Ação transformadora não significa simplesmente fazer alguma coisa.

Nem toda ação transforma.

E nem toda transformação produz melhoria.

Ação transformadora é aquela que procura modificar, de maneira consciente e situada, processos ou condições que participam da produção e manutenção do sofrimento humano, considerando as possibilidades e os limites concretos da situação.

Isso exige compreender:

o que está acontecendo;

como chegou a acontecer;

o que mantém o processo;

quais relações estão envolvidas;

quais condições podem ser modificadas;

quais possibilidades estão disponíveis;

quais consequências podem resultar da intervenção.

A transformação, portanto, não é concebida como um ato isolado.

É compreendida como processo.

Ação sem culpabilização

A Práxis Procedural não confunde protagonismo com culpabilização.

Protagonismo não significa controle absoluto.

Significa a possibilidade de ampliar, quando possível, as margens de participação e autoria do sujeito dentro das condições concretas de sua existência.

A pessoa não é necessariamente autora de tudo aquilo que lhe acontece.

Mas também não precisa ser compreendida como mero produto passivo de sua história.

O sujeito é constituído por processos e, ao mesmo tempo, participa da transformação dos processos que o constituem.

Margem de autoria

A Práxis da Psicologia Procedural procura favorecer aquilo que podemos chamar de margem de autoria.

Ninguém escolhe todas as circunstâncias nas quais nasce.

Ninguém controla todas as relações das quais participa.

Ninguém determina sozinho as condições sociais e históricas de sua existência.

Mas isso não significa ausência absoluta de possibilidades.

Mesmo em condições adversas, podem existir pontos de intervenção, escolhas possíveis, relações modificáveis, comportamentos passíveis de mudança, novas aprendizagens, reorganizações, reinterpretações, ressignificações e formas de participação.

A Práxis Procedural procura identificar essas possibilidades sem transformar limitações em culpa.

Não se trata de responsabilizar o sujeito por seu sofrimento, mas de ajudá-lo, quando possível, a recuperar possibilidades de participação em sua transformação.

Superação do sofrimento

A finalidade da Ação Transformadora é contribuir para a superação do sofrimento humano.

Mas superação não significa prometer uma existência livre de todo sofrimento.

O sofrimento faz parte da condição humana.

Nem todo sofrimento pode ser eliminado.

Nem toda condição pode ser modificada.

Nem toda transformação está sob controle individual.

Superar, nesse contexto, significa procurar transformar as condições, relações, padrões e processos que produzem, mantêm ou agravam determinado sofrimento, sempre na medida das possibilidades concretas.

Pode significar reduzir o sofrimento.

Pode significar interromper um ciclo.

Pode significar modificar uma relação.

Pode significar desenvolver novas possibilidades de ação.

Pode significar reorganizar condições de existência.

Pode significar construir novas formas de relação consigo, com os outros e com o mundo.

Pode significar, simplesmente, deixar de estar submetido ao mesmo processo da mesma maneira.

A transformação pode ser pequena ou profunda.

Individual ou coletiva.

Imediata ou gradual.

Mas precisa ser compreendida no concreto e no movimento.

Práxis como processo recursivo

A Práxis da Psicologia Procedural não funciona como uma receita com começo, meio e fim.

Ela funciona como um processo aberto:

Observar → Compreender → Articular → Intervir → Observar novamente → Reavaliar → Transformar → Compreender novamente

Cada intervenção modifica as condições do processo.

Cada transformação produz novas informações.

Cada nova informação pode alterar a compreensão.

Cada nova compreensão pode modificar a ação.

Assim, a própria práxis aprende com aquilo que transforma.

Esse caráter recursivo é fundamental para uma Psicologia do Devir.

Porque transformar significa também produzir novas condições de existência.

A Práxis é relacionática

Nenhuma ação transformadora acontece completamente isolada.

O sujeito está inserido em relações.

As relações participam da constituição do sofrimento.

E as próprias relações podem tornar-se espaços de transformação.

Por isso, a Práxis Procedural é também relacionática.

Ela procura compreender:

quem participa do processo;

como participa;

como as relações se constituíram;

como se retroalimentam;

que efeitos produzem;

e quais relações podem favorecer transformação.

O sujeito não é retirado de seu mundo para ser tratado como objeto isolado.

Ele é compreendido em relação, tanto consigo mesmo (intra-relações) quanto com o meio ambiente que o circunda (inter-relações naturais e sociais).

A Práxis é concreta

A ação transformadora não acontece em um mundo abstrato. Acontece em um mundo que é atravessado pelas humanas necessidades.

Ou seja: acontece em circunstâncias concretas.

Por isso, a Psicologia Procedural não pergunta apenas:

“O que seria ideal?”

Pergunta também:

“O que é possível aqui?”

“Quais recursos existem?”

“Quais limites estão presentes?”

“Quais necessidades precisam ser consideradas?”

“Que pequena transformação já poderia produzir alguma diferença?”

O concreto é aquilo que é atravessado pelas necessidades, relações, condições e possibilidades humanas.

É nele que a práxis acontece.

Não existe transformação sem realidade

A Práxis Procedural não pretende impor modelos abstratos de existência sobre pessoas concretas.

Aqui é preciso distinguir dois planos, para não confundir o que se recusa com o que se afirma.

No plano das formas de viver, não existe uma única forma universal de viver bem: florescer tem muitos caminhos, e nenhum deles é o caminho.

Mas há um plano abaixo desse — o das condições sem as quais não há sequer quem floresça. Nesse plano existe, sim, um universal: há uma única forma universal de viver mal, que é viver sem saúde. Alguém vive sem respirar? Uma boa condição ambiental é condição sine qua non para que haja vida humana sobre a face da Terra.

Não se trata de uma lente entre as lentes, de uma teoria que pretenda explicar o humano inteiro. Trata-se do chão sobre o qual toda lente se apoia. Por isso as duas coisas convivem sem se contradizer: a pluralidade está no plano das formas de viver; o universal, no plano das condições de existência. Não há lente que seja o todo — mas há um chão sob todas as lentes.

Considerando que saúde não é apenas a ausência de doenças. Saúde é boa disposição física, psíquica, social, ambiental, cultural, histórica, cósmica e espiritual.

Observando que espiritual, aqui, não se refere necessariamente a algo místico ou religioso. Eventualmente até pode ser...

Mas espiritual, no caso, refere-se a boa disposição com aquilo que nos sustenta enquanto humanos: o meio ambiente natural e social.

Assim, não existe fórmula universal para superar todo sofrimento — isso permanece plural, concreto, singular. Mas existe uma condição universal para prevenir sofrimentos desnecessários e muitas vezes perfeitamente evitáveis: cuidar da saúde, que é cuidar do próprio chão.

Não existe uma sequência procedural capaz de prever integralmente a complexidade humana.

O propósito da Psicologia Procedural é:

compreender suficientemente o processo para encontrar possibilidades reais de transformação dentro da realidade concreta em que ele acontece.

Isso exige abertura, flexibilidade, investigação e revisão permanente.

Práxis Procedural e protagonismo cidadão

Ao compreender como seu sofrimento se constituiu e como continua se constituindo, o sujeito pode ter condições de apropriar-se de aspectos de sua própria história.

Essa apropriação pode favorecer o reconhecimento de:

condições das quais participou para produzir o próprio estado atual;

condições que não escolheu;

padrões que aprendeu e podem ser desaprendidos;

padrões que não aprendeu e podem ser aprendidos;

relações que o atravessam;

processos que pode modificar;

processos que dependem de transformação coletiva;

possibilidades de ação que antes não conseguia perceber.

É nesse sentido que a Práxis Procedural pode contribuir para o protagonismo cidadão.

Não como promessa de autonomia absoluta que isso é miragem.

Mas como ampliação da capacidade de compreender, participar, escolher e intervir nos processos que constituem a própria existência.

Conhecer as próprias condições culturais, sociais e históricas pode ampliar a possibilidade de participar de sua transformação.

Ação transformadora também é ação coletiva

Nem todo sofrimento pode ser compreendido ou transformado exclusivamente no plano individual.

Há sofrimentos produzidos ou sustentados por relações sociais, condições econômicas, desigualdades, instituições, culturas, ambientes e estruturas coletivas.

Por isso, a Práxis Procedural não reduz o sofrimento à responsabilidade individual.

Quando o processo é coletivo, a transformação também pode precisar ser coletiva.

O protagonismo do sujeito pode incluir:

participar de relações;

construir redes de apoio;

reivindicar direitos;

modificar ambientes;

organizar-se coletivamente;

participar da comunidade;

produzir novas formas de convivência.

Ação transformadora não é necessariamente ação individual.

É ação situada no mundo.

O princípio da Práxis Procedural

A Práxis Procedural pode ser sintetizada em um princípio:

Não basta compreender o sofrimento humano. É preciso, sempre que possível, transformar as condições e os processos que participam de sua constituição e manutenção.

E também:

Compreender sem transformar pode ser insuficiente. Transformar sem compreender pode ser imprudente.

Entre esses dois extremos encontra-se a práxis.

Compreensão orientando ação.

Ação produzindo transformação.

Transformação produzindo novas condições.

Novas condições exigindo nova compreensão.

Em síntese

Diagnósticos podem nomear configurações subjetivas.

Investigação Procedural procura compreender como essa configuração se constituiu e se mantém.

A práxis da Psicologia Procedural procura intervir, sempre que possível, nos processos e condições passíveis de transformação.

Ação Transformadora produz novas condições de existência.

E o processo continua.

O objetivo não é simplesmente saber o que o sofrimento é.

É compreender como ele se constitui, como se mantém, como pode ser superado com a necessária transformação e como o sujeito pode, quando possível, participar dessa transformação.

PRÁXIS PROCEDURAL

AÇÃO TRANSFORMADORA

Compreender para transformar.

Transformar para compreender.

Visando, sempre que possível, à superação do sofrimento humano e à ampliação das possibilidades de existência.

No Fluxo do Devir