Clínica
No encontro clínico, individual ou familiar, a perspectiva não busca consertar uma pessoa defeituosa. Busca reconstituir com ela o processo que produziu o sofrimento — o script que foi inscrito por uma história que ela não escolheu — e, a partir dessa compreensão, co-autorar a sua reescrita. O diagnóstico é instrumento de orientação, não sentença: nomeia uma configuração para dela cuidar, sem confundir o nome com a pessoa. Quem transforma é o sujeito; ao terapeuta cabe dispor as condições.
Educação
Na escola e na aprendizagem, a dificuldade não é um defeito da criança, mas um processo constituído em relações — sociais, culturais, históricas. A perspectiva pergunta como aquela dificuldade se constituiu e que contingências, dispostas no ambiente de aprendizagem, a tornariam superável. É Vygotsky: o que é primeiro social torna-se interior, e educar é dispor condições para que o educando se torne sujeito, e não objeto, do próprio aprender.
Organizações
No trabalho e nas equipes, o sofrimento raramente é falha de um indivíduo; é, quase sempre, efeito de um sistema — um script legado da própria organização, que segue rodando. A perspectiva desloca o olhar da culpa individual para as contingências do ambiente: em vez de responsabilizar a pessoa, refatora-se o sistema — redispõem-se os fatores que produzem o mal-estar —, reconhecendo a margem de autoria de cada um dentro das condições que não escolheu.
Saúde pública e coletiva
Aqui a perspectiva mostra a sua raiz mais material. O sofrimento é também produzido por condições — pela precariedade, pela desigualdade, pelo ambiente. Cuidar, nesse plano, é dispor condições de existência: prevenir é agir sobre o chão sem o qual não há florescimento — a saúde, o ambiente, as necessidades concretas. É o compromisso ecológico e social levado à escala coletiva: não há bem-estar psíquico sustentável sobre condições materiais insustentáveis.
Comunidade
Na comunidade, o sujeito da transformação é coletivo. A perspectiva encontra aqui a psicologia social comunitária brasileira: a conscientização, o protagonismo do grupo, a transformação que começa alterando as contingências locais de convivência e de significação — sem esperar o decreto vindo de cima. O coletivo, como o indivíduo, é autor da própria história, nas condições que herdou e que pode refazer.