Articulativa
Porque coloca diferentes perspectivas e dimensões em relação sem apagar suas diferenças.
Justificativa
Razões de ser, finalidades e compromissos
A Psicologia Procedural não nasce da pretensão de criar mais uma escola de Psicologia, substituir as abordagens existentes ou oferecer uma teoria capaz de explicar, sozinha, toda a complexidade humana.
Sua razão de ser é outra.
Ela nasce da convicção de que compreender o sofrimento humano exige mais do que identificar e classificar aquilo que se apresenta.
É preciso também perguntar:
Como isso se constituiu?
E, talvez ainda mais importante:
Como isso continua se constituindo?
A Psicologia Procedural procura, portanto, deslocar o olhar do fenômeno isolado para os processos, relações, condições, necessidades, consequências e transformações que participam de sua constituição.
A Psicologia dispõe de categorias, classificações e diagnósticos que podem desempenhar funções importantes na comunicação profissional, na investigação, na organização do conhecimento e na orientação de intervenções.
A Psicologia Procedural não pretende negar essa utilidade.
O problema começa quando o instrumento de descrição passa a ser confundido com a realidade que pretende descrever.
Uma pessoa pode apresentar depressão sem ser a depressão.
Pode apresentar ansiedade sem ser a ansiedade.
Pode apresentar determinado padrão comportamental sem ser reduzida a esse padrão.
A categoria pode descrever uma configuração do sofrimento; ela não esgota a pessoa.
É nesse ponto que se torna fundamental distinguir diagnóstico de diagnosticismo.
Pode funcionar como instrumento de identificação, comunicação, investigação e orientação.
Ocorre quando a categoria deixa de ser instrumento e passa a funcionar como identidade, explicação totalizante ou essência da pessoa.
O percurso pode ser aparentemente pequeno:
“A pessoa apresenta X.”
transforma-se em:
“A pessoa é X.”
e, posteriormente:
“Tudo o que essa pessoa faz é explicado por X.”
Nesse momento, a representação começa a substituir aquilo que deveria apenas representar.
A Psicologia Procedural pretende evitar essa passagem.
O diagnóstico pode nomear uma configuração. O diagnosticismo transforma a configuração na pessoa.
Uma pergunta classificatória pode ser:
O que isso é?
A Psicologia Procedural acrescenta outra:
Como isso se constituiu?
E, a partir dela:
Quando começou?
Em que condições surgiu?
O que aconteceu antes?
Que necessidades estavam envolvidas?
Que relações participaram de sua constituição?
Que condições sociais, culturais, históricas e ambientais estavam presentes?
Que processos contribuíram para sua manutenção?
Que consequências o retroalimentam?
Como se transformou ao longo do tempo?
O que já foi capaz de modificá-lo?
Que possibilidades de transformação permanecem abertas?
Assim, o objeto da investigação deixa de ser apenas a configuração atual do sofrimento e passa a incluir o processo pelo qual essa configuração se constituiu, se mantém e pode transformar-se.
Não se trata apenas de saber o que algo é. Trata-se de compreender como chegou a ser o que é — e como continua tornando-se aquilo que é.
O sofrimento humano não acontece no vazio.
Ele acontece em vidas concretas.
É atravessado por necessidades, relações, condições materiais, histórias pessoais, experiências, comportamentos, ambientes, culturas, instituições, acontecimentos e possibilidades.
Por isso, a Psicologia Procedural procura compreender o sofrimento não como uma coisa isolada, mas como uma configuração processual do concreto humano.
Uma configuração pode ser persistente sem ser necessariamente permanente.
Pode ser profundamente condicionada sem ser necessariamente imutável.
Pode possuir determinantes importantes sem eliminar completamente as possibilidades de transformação.
Isso significa reconhecer simultaneamente:
há processos que nos constituem;
há condições que não escolhemos;
há limites reais à nossa ação;
e, ainda assim, podem existir margens de participação e transformação.
A Psicologia Procedural não pretende construir um grande mosaico formado pela simples colagem de teorias psicológicas.
Não pretende criar um ecletismo ingênuo.
Não pretende produzir um “Frankenstein conceitual”, formado pela reunião arbitrária de partes de teorias diferentes.
A proposta é outra:
Articular sem confundir.
Relacionar sem reduzir.
Aproximar sem apagar diferenças.
Diferentes autores e tradições podem oferecer contribuições distintas para a compreensão do fenômeno humano.
Não é necessário afirmar que todos pensaram a mesma coisa.
Eles não pensaram.
Heráclito, Peirce, William James, Husserl, Politzer, Skinner, Vygotsky, Engels, Seligman e tantos outros pertencem a contextos, problemas, métodos e tradições diferentes.
O que interessa é investigar quais contribuições de cada perspectiva podem ser colocadas em relação, quais são seus alcances, seus limites, suas diferenças, suas tensões e suas possibilidades de diálogo.
A pergunta não é:
“Como fazer todas essas teorias dizerem a mesma coisa?”
Mas:
“O que acontece quando perspectivas diferentes são colocadas em relação sem que suas diferenças sejam apagadas?”
Entre as influências que ajudam a iluminar essa atitude encontra-se o pragmatismo, especialmente em Charles Sanders Peirce e William James.
A Psicologia Procedural não pretende reproduzir o pragmatismo nem afirmar que Peirce e James defendiam a Psicologia Procedural.
A aproximação é outra.
Existe uma preocupação pragmática particularmente fecunda:
Que diferença uma ideia, uma compreensão ou uma hipótese pode fazer na experiência e na ação?
Em outras palavras:
Para que serve compreender?
Isso não significa reduzir a verdade ao que simplesmente “funciona”.
Nem significa transformar a Psicologia em uma coleção de técnicas utilitárias.
Significa reconhecer que o conhecimento psicológico não precisa permanecer indiferente às consequências humanas daquilo que compreende.
Uma ideia pode ser intelectualmente sofisticada.
Uma teoria pode ser elegantemente construída.
Um conceito pode ser filosoficamente interessante.
Mas a Psicologia Procedural também pergunta:
O que isso nos permite compreender?
Que diferença isso pode produzir?
Em que condições pode ajudar?
Como pode contribuir para a compreensão e a superação do sofrimento humano?
O sofrimento humano acontece na vida.
Acontece quando alguém não consegue interromper um padrão que reconhece como prejudicial.
Quando uma relação se deteriora.
Quando uma pessoa perde aquilo que dava sentido à sua existência.
Quando uma criança encontra obstáculos ao seu desenvolvimento.
Quando alguém se sente aprisionado em processos que se repetem.
Quando condições sociais, econômicas, culturais ou relacionais restringem possibilidades de existência.
Quando aquilo que inicialmente parecia circunstancial transforma-se em um processo persistente.
É nesse território que a Psicologia Procedural pretende colocar o conhecimento à prova.
Não para oferecer respostas universais.
Não para prometer soluções simples para problemas complexos.
Mas para perguntar:
Que processos estão acontecendo?
Como chegaram até aqui?
O que os mantém?
Que relações os alimentam?
Que condições os modificam?
Que possibilidades de intervenção existem?
O que poderia produzir uma diferença concreta?
Aqui aparece uma das principais razões de ser da Psicologia Procedural.
Ao compreender como determinado sofrimento se constituiu, o sujeito pode ter melhores condições de reconhecer as circunstâncias, relações, necessidades, padrões e consequências que participam de sua experiência.
Essa compreensão pode possibilitar uma forma de apropriação da própria história.
Não no sentido de assumir culpa por tudo aquilo que lhe aconteceu.
Mas no sentido de reconhecer:
“Agora consigo perceber melhor como isso aconteceu comigo, como continua acontecendo e onde talvez possa participar de alguma mudança.”
Essa diferença é fundamental.
Compreender a constituição do sofrimento não significa responsabilizar o indivíduo por tê-lo produzido.
O ser humano não escolhe todas as condições de sua existência.
Há circunstâncias biológicas, sociais, econômicas, culturais, históricas, familiares e relacionais que podem ultrapassar amplamente sua capacidade individual de intervenção.
Por isso, protagonismo não significa autossuficiência.
Significa ampliar, quando possível, as margens de participação e de autoria do sujeito dentro da realidade concreta em que vive.
A Psicologia Procedural não pretende dizer:
“Você criou seu próprio sofrimento; portanto, a responsabilidade é sua.”
Pretende dizer algo muito diferente:
“Você participa de uma história que também foi constituída por condições que nem sempre escolheu; compreender essa história pode ampliar suas possibilidades de participação naquilo que ainda pode ser transformado.”
A diferença entre essas duas afirmações é enorme.
A primeira pode culpabilizar.
A segunda procura ampliar a agência.
O sujeito não é autor absoluto de sua história.
Mas também não precisa ser compreendido como mero produto dela.
Somos constituídos pela história, mas, ao compreendê-la, podemos participar de sua transformação.
Talvez o protagonismo humano possa ser compreendido não como controle absoluto da própria existência, mas como margem de autoria.
Ninguém escolhe todas as condições nas quais nasce.
Ninguém controla todas as circunstâncias que atravessam sua vida.
Ninguém determina sozinho as relações das quais participa.
Mas isso não significa que não possam existir possibilidades de escolha, intervenção, reorganização e transformação.
A Psicologia Procedural interessa-se justamente por investigar onde essas possibilidades existem, como podem ser ampliadas e quais condições favorecem sua emergência.
O sujeito não é apenas constituído por processos; ele também participa da transformação dos processos que o constituem.
Essa é uma das ideias centrais da Psicologia Procedural:
Compreender a constituição do sofrimento pode ampliar as possibilidades de intervenção sobre os processos que participam de sua manutenção.
Não há garantia de que compreender seja suficiente para transformar.
Não há garantia de que toda transformação esteja ao alcance do indivíduo.
Não há garantia de que exista uma solução simples.
Mas existe uma diferença fundamental entre:
“Eu sou isso.”
e:
“Isso se constituiu em minha história, sob determinadas condições, e talvez possamos compreender como continua acontecendo.”
A segunda formulação abre espaço para investigação.
E a investigação pode abrir espaço para possibilidades.
E possibilidades podem, em determinadas circunstâncias, abrir espaço para transformação.
A Psicologia Procedural não pretende ser “a Psicologia correta”.
Não pretende declarar que outras abordagens estejam erradas.
Não pretende resolver, por decreto, divergências que fazem parte da própria história da Psicologia.
Não pretende substituir aquilo que já existe.
Sua proposta é colocar conhecimentos diferentes em relação, investigando o que cada perspectiva consegue iluminar, o que deixa de iluminar, em que condições pode ser útil e quais são seus limites.
Por isso, a Psicologia Procedural é:
Porque coloca diferentes perspectivas e dimensões em relação sem apagar suas diferenças.
Porque compreende o humano em movimento, transformação e devir.
Porque considera as relações não apenas como existentes, mas como processos dinâmicos que se constituem, transformam-se, retroalimentam-se e produzem efeitos.
A Psicologia Procedural existe para compreender o sofrimento humano sem reduzir a pessoa ao seu sofrimento, investigando os processos pelos quais ele se constitui e se mantém, de modo a ampliar — sempre que possível — as condições para que o próprio sujeito participe de sua transformação.
Não pretende apenas perguntar:
“O que há com esta pessoa?”
Procura também perguntar:
“O que aconteceu com esta pessoa?”
“O que aconteceu entre esta pessoa e seu mundo?”
“Como esse processo se constituiu?”
“Como continua acontecendo?”
“E o que pode ser transformado?”
Essa é uma das razões fundamentais de sua existência.
Para que a compreensão do humano não precise terminar na classificação.
Para que o diagnóstico possa permanecer instrumento, sem transformar-se em identidade.
Para que a pessoa não seja confundida com a categoria utilizada para descrever seu sofrimento.
Para que o sofrimento possa ser investigado em sua história, suas relações, suas condições e seus processos de constituição.
Para que diferentes conhecimentos possam ser articulados sem produzir um ecletismo ingênuo.
Para que teoria e experiência possam permanecer em diálogo.
Para que o conhecimento psicológico possa perguntar também pelas diferenças que é capaz de produzir.
Para que a compreensão possa ampliar possibilidades de ação.
Para que o sujeito possa, quando possível, apropriar-se de sua história sem ser culpabilizado por ela.
Para que possa reconhecer margens de autoria onde antes talvez percebesse apenas determinação.
Para que a Psicologia permaneça próxima da vida concreta.
E, finalmente:
Para que compreender melhor o ser humano possa contribuir, de alguma maneira, para que seres humanos possam viver melhor.
A Psicologia Procedural existe para compreender como o sofrimento humano se constitui, se mantém e se transforma, sem reduzir a pessoa àquilo que sofre, ampliando — sempre que possível — suas possibilidades de compreensão, participação e transformação de sua própria história.
Não para substituir perspectivas.
Não para juntar teorias indiscriminadamente.
Não para transformar pessoas em categorias.
Mas para colocar conhecimentos em relação, processos em compreensão e compreensão a serviço da vida.
Uma perspectiva processual da realidade humana — e, por isso mesmo, articulativa e relacionática.
No Fluxo do Devir.