A linguagem da Era Digital

Léxico Procedural

Os termos tomados de empréstimo, traduzidos

Esta é a terceira de três páginas sobre a linguagem da Psicologia Procedural: os conceitos próprios da perspectiva estão em Conceitos; por que ela pode tomar palavras emprestadas de outro campo, em Do Empréstimo; aqui, os termos emprestados e o que passam a significar.

As regras do empréstimo

Os termos abaixo são tomados da Informática e reconotados. Cinco regras governam cada empréstimo: (1) o defeito, quando há, está no script — no processo inscrito —, nunca no sujeito; (2) toda operação abre possibilidades, disponibilizando novas contingências, nunca fecha, rotulando; (3) o sujeito permanece autor, jamais máquina programada de fora; (4) só entra o termo que nomeia algo que o vocabulário psicológico comum embaça; (5) o termo que resiste à tradução é recusado, e a recusa é dita. A fundamentação inteira está em Do Empréstimo.

Refatorar

Na Informática. Reorganizar a estrutura interna de um código preservando o seu comportamento externo — “mudar a fatoração”, tornar o sistema mais claro e tratável. Não é reescrever do zero: é a condição que torna a mudança possível.

Na Psicologia Procedural. Redisponibilizar os fatores — as contingências — que possibilitam a emissão de novos e mais saudáveis comportamentos. A refatoração dispõe as condições; quem emite o novo comportamento é o sujeito. Possibilita, não instala.

Raiz comum. “Factor”, do latim facere, “fazer” — aquilo que faz, o agente produtor. Redisponibilizar fatores é reoferecer aquilo que faz. Por essa raiz, o termo está mais em casa aqui, entre contingências vivas, do que na engenharia, entre partes inertes.

Script legado

Na Informática. Código herdado que continua rodando, muitas vezes mal compreendido, escrito para um contexto que já passou e que ainda condiciona o sistema presente. Mantém-se porque funciona, não porque serve.

Na Psicologia Procedural. O conjunto de condicionamentos histórico, social e cultural inscritos no passado que segue disparando no presente — respostas que fizeram sentido nas condições que as geraram e continuam a ser emitidas mesmo quando o contexto que as tornava adaptativas já não existe. O sofrimento, aqui, é a execução continuada de uma rotina que perdeu a função. Repare: o defeito está no script obsoleto, não na pessoa que o herdou.

Raiz comum. “Legado”, do latim legare, “deixar em herança”. O script legado é, ao pé da letra, o que nos foi legado — pela família, pela cultura, pela história — e que roda em nós antes de o compreendermos.

Input (entrada)

Na Informática. O dado que entra num sistema e é processado por uma função; a mesma entrada, na mesma função, produz sempre a mesma saída.

Na Psicologia Procedural. A situação que se apresenta ao sujeito no presente — mas aqui o empréstimo pede um cuidado. O input humano não é processado por uma função fixa: ele é interceptado pelo script legado e, sobretudo, significado. A mesma entrada produz saídas diferentes em pessoas diferentes, e na mesma pessoa em momentos diferentes, porque entre o input e a resposta há produção de sentido. Input, sim; função fixa, não. É aí que o humano deixa de ser máquina.

Raiz comum. “Input”, in + put, “pôr para dentro”. Ressoa com a lei de Vygotsky: o que é primeiro de fora torna-se interior. Mas, no humano, o que entra é reelaborado, não apenas armazenado.

Runtime (ambiente de execução)

Na Informática. O ambiente em que um programa de fato executa — as condições presentes durante a execução, distintas do momento em que o código foi escrito.

Na Psicologia Procedural. O Concreto — as condições vivas, materiais e presentes em que o processo do sujeito acontece, aqui e agora. É o ambiente de execução que responde, ou não, às ações do sujeito; e é nele, não numa abstração, que qualquer transformação se dá. Reescrever um script legado é, no fundo, devolver o sujeito ao seu runtime: fazer com que ele volte a responder às contingências vivas do presente, em vez de às ameaças de um passado que já não roda.

Raiz comum. Run + time, “tempo de execução” — o tempo em que a coisa de fato corre. O presente vivo, e não o passado que a inscreveu.

No Fluxo do Devir

Depurar / debugar

Na Informática. Encontrar e remover erros (bugs) de um código — o bug é um defeito, o código está errado, corrige-se.

Na Psicologia Procedural. Aqui o termo só entra redefinido, e a redefinição é decisiva. Não se depura uma pessoa: relê-se um processo para reescrevê-lo. O “bug” não é um erro do sujeito — é um trecho que rodou exatamente como as condições o escreveram; não se deleta, compreende-se e se reescreve. Depurar, na perspectiva, é tornar o processo legível para poder refazê-lo — nunca limpar um defeito da pessoa. Sem essa redefinição, o termo traria de volta a lógica do CID, que codifica para fixar; com ela, serve à lógica oposta, a do código que se abre para ser reescrito.

Resetar recusado

Na Informática. Retornar um sistema ao estado inicial, “de fábrica”, apagando o que se acumulou.

Por que é recusado. Num sujeito histórico não existe estado de fábrica. Não há um ponto zero anterior à história ao qual “voltar”; há apenas devir, e o devir não apaga — reconfigura. “Deletar” é recusado pela mesma razão: não se apaga uma memória, uma história, um sentido; refaz-se. Este verbete está aqui de propósito, para lembrar que o vocabulário da Psicologia Procedural se define tanto pelo que adota quanto pelo que rejeita.

Psicologia Procedural

Uma psicologia do sujeito e o vocabulário da Era Digital.

No Fluxo do Devir